segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

NA CORDA BAMBA

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Já caíu a noite, são umas seis da tarde e uma mole de curiosos espeta as vistas lá para cima, para o topo do edifício. Do lado direito das luzes de neon vermelho avistam-se umas pernas bamboleantes. "Como é que ele consegue estar ali há tanto tempo?", pergunta uma mulher. "Se ele se quisesse matar, já se tinha atirado", sentencia um homem. Uma rapaziada sorridente aprecia a acção de mãos nos bolsos. "O que ele quer", explica um polícia de trânsito psicólogo, "é precisamente que as pessoas estejam aqui a dar-lhe atenção. Se forem embora, é melhor para ele e para quem está a negociar com ele". Uma idosa pendurada numas muletas pergunta: "O que é que ele tem? Problemas na vida?" O polícia de trânsito cofia o bigode e vira-lhe as costas. Cá em baixo, na Praça do Saldanha, as viaturas desce para a avenida no frenesim das sextas-feiras, entre buzinadelas e travagens nos semáforos. Lá em cima, duas pernas continuam a agitar-se no tecto escuro da cidade, deambulando angústias, gritando por ajuda ou atenção. "Bom", calcula um homem de mãos nos bolsos, "para se matar o gajo devia ter escolhido o lado da Fontes Pereira de Melo. Ali, cai no terraço, são três andares, não sei... escolheu mal o sítio..."

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