Os bombeiros ainda não haviam chegado. O vizinho do quarto andar encostava-se à porta, displicente como quem diz: "Aquilo é tudo gente maluca..." Foi quando surgiu nas escadas o homem gordo e em cuecas, de olhos esbugalhados, o rosto todo inchado, o cabelo a fumegar. De onde vinha ele? Estava mais gente lá em cima? Sentou-se, no frio do mármore, uma das pernas em ferida, ninguém por perto para lhe trazer um cobertor. Falava um pouco em português e outro tanto em francês. Você não pode ficar aí ao frio, disse-lhe alguém. O vizinho do quarto andar fez que não era nada com ele. Chegaram os bombeiros, a grossa mangueira preta escada acima. Nisto abre-se a porta do elevador. Quem é que vai utilizar um elevador numa ocasião destas? Era a filha, uma adolescente, piercing no lábio inferior, cachecol esverdeado de lã ao pescoço: "Voltaste a fumar no quarto, não foi, voltaste a acender cigarros no quarto", soltou rispidamente, o homem aterrorizado, de olhos esbugalhados, os cabelos aloirados e chamuscados a emanar fios de fumo cinzento. Estava no apartamento, estava no quinto andar? " Eu estava, vi tudo a arder, pirei-me. Onde é que está a minha avó?" A avó já estava em segurança na casa da vizinha do quarto andar. Quem terá ateado o fogo, afinal? "Oh, foi ele, estava na cama, deve ter deixado cair um cigarro, foi à sala, quando voltou para o quarto deve ter dado com as chamas". Os bombeiros embrulharam o homem de olhos grandes de peixe numa enorme capa isotérmica, uma coisa assim prateada. Depois pegaram nele e na mãe, que entretanto desceu atarantada pelas mãos dos bombeiros- "onde é que me vão levar?"- e meteram-nos na ambulância. "O meu pai e a minha mãe foram para a ambulância?", perguntou a jovem, impaciente. Sim, lá estavam eles a ser socorridos.
A rapariga desapareceu avenida acima com a vizinha do quarto andar a perguntar: "A nossa casa está cheia de fumo. Como é que vamos lá dormir com a casa cheia de fumo?"
quarta-feira, 14 de janeiro de 2009
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