quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

A NOSSA CASA ESTÁ A DEITAR FUMO!

Os bombeiros ainda não haviam chegado. O vizinho do quarto andar encostava-se à porta, displicente como quem diz: "Aquilo é tudo gente maluca..." Foi quando surgiu nas escadas o homem gordo e em cuecas, de olhos esbugalhados, o rosto todo inchado, o cabelo a fumegar. De onde vinha ele? Estava mais gente lá em cima? Sentou-se, no frio do mármore, uma das pernas em ferida, ninguém por perto para lhe trazer um cobertor. Falava um pouco em português e outro tanto em francês. Você não pode ficar aí ao frio, disse-lhe alguém. O vizinho do quarto andar fez que não era nada com ele. Chegaram os bombeiros, a grossa mangueira preta escada acima. Nisto abre-se a porta do elevador. Quem é que vai utilizar um elevador numa ocasião destas? Era a filha, uma adolescente, piercing no lábio inferior, cachecol esverdeado de lã ao pescoço: "Voltaste a fumar no quarto, não foi, voltaste a acender cigarros no quarto", soltou rispidamente, o homem aterrorizado, de olhos esbugalhados, os cabelos aloirados e chamuscados a emanar fios de fumo cinzento. Estava no apartamento, estava no quinto andar? " Eu estava, vi tudo a arder, pirei-me. Onde é que está a minha avó?" A avó já estava em segurança na casa da vizinha do quarto andar. Quem terá ateado o fogo, afinal? "Oh, foi ele, estava na cama, deve ter deixado cair um cigarro, foi à sala, quando voltou para o quarto deve ter dado com as chamas". Os bombeiros embrulharam o homem de olhos grandes de peixe numa enorme capa isotérmica, uma coisa assim prateada. Depois pegaram nele e na mãe, que entretanto desceu atarantada pelas mãos dos bombeiros- "onde é que me vão levar?"- e meteram-nos na ambulância. "O meu pai e a minha mãe foram para a ambulância?", perguntou a jovem, impaciente. Sim, lá estavam eles a ser socorridos.
A rapariga desapareceu avenida acima com a vizinha do quarto andar a perguntar: "A nossa casa está cheia de fumo. Como é que vamos lá dormir com a casa cheia de fumo?"

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

NA CORDA BAMBA

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Já caíu a noite, são umas seis da tarde e uma mole de curiosos espeta as vistas lá para cima, para o topo do edifício. Do lado direito das luzes de neon vermelho avistam-se umas pernas bamboleantes. "Como é que ele consegue estar ali há tanto tempo?", pergunta uma mulher. "Se ele se quisesse matar, já se tinha atirado", sentencia um homem. Uma rapaziada sorridente aprecia a acção de mãos nos bolsos. "O que ele quer", explica um polícia de trânsito psicólogo, "é precisamente que as pessoas estejam aqui a dar-lhe atenção. Se forem embora, é melhor para ele e para quem está a negociar com ele". Uma idosa pendurada numas muletas pergunta: "O que é que ele tem? Problemas na vida?" O polícia de trânsito cofia o bigode e vira-lhe as costas. Cá em baixo, na Praça do Saldanha, as viaturas desce para a avenida no frenesim das sextas-feiras, entre buzinadelas e travagens nos semáforos. Lá em cima, duas pernas continuam a agitar-se no tecto escuro da cidade, deambulando angústias, gritando por ajuda ou atenção. "Bom", calcula um homem de mãos nos bolsos, "para se matar o gajo devia ter escolhido o lado da Fontes Pereira de Melo. Ali, cai no terraço, são três andares, não sei... escolheu mal o sítio..."

UMA VIÚVA PARA O JULINHO

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O senhor Jorge limpa mais umas chávenas no lava-loiças quebrado, de costas para o balcão de alumínio, as bolas de berlim, os salgados e o minúsculo café rectangular e acanhado onde vive barricado grande parte do dia. Num cartaz, por cima do cabelo branco a definhar do senhor Jorge, alguém escreveu: “Já deixei de fiar há muito tempo!”
- Jorge, o que é que se passa com o Julinho?
- O Julinho, o que é que aconteceu desta vez com o Julinho?
- Vai ali com um sapato amarelo e outro castanho.
- Coitado do Julinho...
O Julinho usa uns óculos com umas grandes e grossas dioptrias. De Verão, veste invariavelmente fato-treino azul e panamá na cabeça. Às vezes, carrega uma toalha ao ombro. No Inverno, o passo trôpego transforma-se em passo de tartaruga. Passa a vestir um casaco castanho quase até aos pés, que arrasta pela calçada portuguesa. Vive sózinho, de uma reforma na Marinha, dizem.
Noutro dia, o Julinho entrou no Café do Senhor Jorge a meio do dia. O Senhor Jorge deu-lhe uns conselhos, como a toda a gente:
- Vá até ao centro, não beba, não durma de tarde senão depois não consegue dormir à noite...
O Julinho fez hum...hum...e lá desapareceu porta fora, a pequena tartaruga problemática.
E daquela vez que o Julinho passou à porta do Café do Senhor Jorge surpreendentemente vestido a rigor, fato e gravata, o cabelo penteado para trás, um sorriso nos lábios?
- Faz-lhe bem, fá-lo sentir-se bem, comentou o Andrade, dono da mercearia fronteira ao Café do Jorge, um braço na ponta do balcão e os olhos pespegados ao pouco movimento da rua.
- Queres ver que foi desta que o Julinho arranjou uma viúva?