segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

UMA VIÚVA PARA O JULINHO

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O senhor Jorge limpa mais umas chávenas no lava-loiças quebrado, de costas para o balcão de alumínio, as bolas de berlim, os salgados e o minúsculo café rectangular e acanhado onde vive barricado grande parte do dia. Num cartaz, por cima do cabelo branco a definhar do senhor Jorge, alguém escreveu: “Já deixei de fiar há muito tempo!”
- Jorge, o que é que se passa com o Julinho?
- O Julinho, o que é que aconteceu desta vez com o Julinho?
- Vai ali com um sapato amarelo e outro castanho.
- Coitado do Julinho...
O Julinho usa uns óculos com umas grandes e grossas dioptrias. De Verão, veste invariavelmente fato-treino azul e panamá na cabeça. Às vezes, carrega uma toalha ao ombro. No Inverno, o passo trôpego transforma-se em passo de tartaruga. Passa a vestir um casaco castanho quase até aos pés, que arrasta pela calçada portuguesa. Vive sózinho, de uma reforma na Marinha, dizem.
Noutro dia, o Julinho entrou no Café do Senhor Jorge a meio do dia. O Senhor Jorge deu-lhe uns conselhos, como a toda a gente:
- Vá até ao centro, não beba, não durma de tarde senão depois não consegue dormir à noite...
O Julinho fez hum...hum...e lá desapareceu porta fora, a pequena tartaruga problemática.
E daquela vez que o Julinho passou à porta do Café do Senhor Jorge surpreendentemente vestido a rigor, fato e gravata, o cabelo penteado para trás, um sorriso nos lábios?
- Faz-lhe bem, fá-lo sentir-se bem, comentou o Andrade, dono da mercearia fronteira ao Café do Jorge, um braço na ponta do balcão e os olhos pespegados ao pouco movimento da rua.
- Queres ver que foi desta que o Julinho arranjou uma viúva?

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